Wezooit desta vez teve a oportunidade de entrevistar Vicki Putman-Weber, treinadora sênior de orcas no SeaWorld.

Nasceu em Albany (EUA), e estudou biologia no Linn-Benton Community College e Zoologia na Oregon State University. A sua carreira começou em 2000 como estagiária no Oregon Coast Aquarium com focas e leões marinhos. Mais tarde, trabalhou no Ocean World, Six Flags Discovery Kingdom e, finalmente, no SeaWorld San Diego, Califórnia.

De seguida todos os detalhes da nossa entrevista.

 

Quando e como soubes-te que querias ser uma treinadora de mamíferos marinhos?

Decidi que queria ser uma treinadora de orcas depois de visitar o SeaWorld San Diego quando tinha 16 anos.

No Oregon, onde cresci, tínhamos cães, gatos e roedores em casa e como se pode perceber , desde sempre amo os animais, e quando vi os treinadores a interagir com golfinhos, baleias e leões marinhos, como fazem no SeaWorld, fiquei surpresa! Nunca tinha visto esses animais antes e, claro, não tinha ideia de que as pessoas podiam interagir assim com eles. Naquele momento, percebi que queria ser uma treinadora de orcas no SeaWorld.

 

Que diferenças e semelhanças viste durante todos estes anos com orcas, golfinhos, belugas, leões marinhos...?

O meu primeiro trabalho foi com focas e leões marinhos. Adorei trabalhar com pinípedes! Respondem à tua voz e, ao contrário dos cetáceos, podem caminhar na terra e era como trabalhar com cães.

Com golfinhos foi diferente. Os golfinhos geralmente estão em grupos sociais maiores, e isso pode permitir ou até atrapalhar a tua formaçao. Descobri que aceitam melhor os novos treinadores do que os leões marinhos, que mesmo se criam vínculos com os treinadores, também trabalham com qualquer pessoa que consiga conquistar a confiança deles.

As baleias ao contrario, são mais influenciadas pela dinâmica social do que as outras duas espécies e por isso sempre tivemos que ter ainda mais em conta a dinâmica social em tudo o que tinha que ser feito.

A vida social ditou muito do que podíamos fazer e de todas as espécies com as quais trabalhei, sinto que a relação mais complexa entre o treinador e animal è aquela com as baleias.

Por experiência própria, posso dizer que as baleias percebem as coisas muito mais rapidamente do que os golfinhos ou leões marinhos, e por causa disso costumamos brincar , e dizer que os treinadores de baleias ficam preguiçosos porque somos capazes de saltar etapas no treino que não seriam possível fazer com um golfinho ou um leão-marinho.

Por exemplo, se eu treino uma baleia para fazer uma determinada posição na piscina , mas depois quero que ela faça o mesmo comportamento numa zona completamente diferente, tudo o que tenho que fazer é pedir o comportamento e quando o fazem, reforçar.

Depois peço o salto novamente mas desta vez com um pequeno toque na água indicamos o novo sitio do comportamento. A probabilidade de sucesso que a baleia neste caso è quase de 100%.

Tentar o mesmo conceito com um golfinho, é provável que tenha que voltar atràs no treino e fazer várias aproximações usando o target para assinalar o ponto final do comportamento.

 

Vicki con Keet en SeaWorld (San Diego)

VVicki e a Keet no SeaWorld (San Diego)

 

O tempo passado com esses animais que significado tem para ti? Tens falta da interação na água com as orcas?

O tempo que passei na água com as baleias foi inesquecível.

É difícil descrever a sensação de estar lado a lado com um animal tão grande e poderoso è uma experiência de vida e entrar na água com uma Orca é a expressão máxima do tempo que dedicas a cultivar o teu relacionamento com ela e também é um testemunho das horas de treino de todos os que vieram antes de ti. Entrar na agua com uma Orca é o resultado de um forte trabalho de equipa.

Tenho saudades imensas da interação na água com as baleias. Quando estás na água, estás no mundo deles, e estar a este nível com um animal que passas todos os dias da tua vida è o sonho de todos os treinadores.

 

Hoje em dia a nossa profissão é muito atacada por ativistas radicais, principalmente com base na desinformação. O que dirias às pessoas que desaprovam os zoológicos?

Todos têm direito a uma opinião. Descobri que é melhor seguir essa linha de pensamento ao interagir com pessoas que se opõem aos zoológicos.  Esta abordagem geralmente reduz a raiva e, portanto, é mais provável que possamos ter uma conversa calma e civilizada sobre o assunto.

Gosto de ouvir o que dizem sobre zoológicos sem interrompê-los, e quando terminam, digo a eles porque acho que os zoológicos sao importantes.

Tento contestar diretamente as preocupações com fatos e exemplos, dessa forma, não estou a dizer que estão errados, mas dou-lhes uma perspectiva diferente, e no final desta conversa, muitas vezes percebem que os zoológicos contribuem para a conservação e a educação de uma forma importante.

Algumas pessoas podem mudar completamente a visão ou pensamento, mas outros, por outro lado, não.

Nestes casos, apenas sorrio e digo que respeito a opinião que è diferenta da minha mas que não a compartilho. Não há razão para tentar convencê-los. Em vez disso, ofereça alguns recursos para fazer pesquisas adicionais sobre o assunto. Se eles obtiveram informações da PETA, Rick O'Barry, Blackfish, etc., esta informação é unilateral.

È importante tambem destacar a diferença entre direitos animais e bem-estar animal. Muitas pessoas não entendem profundamente a diferença , e quando descobrem a verdade e os motivos do movimento pelos direitos dos animais e ficam chocadas!

 

Que significado tem para ti todos estes anos de trabalho no SeaWorld e que durante este tempo que tipo de pesquisa ou projetos de conservação foram feitos?

O meu tempo no SeaWorld tem sido muito gratificante para mim. Trabalhar com as Orcas era meu sonho de infância e durante todos estes anos foi lindo poder amar estes animais incríveis todos os dias !

Testemunhei eventos incríveis, como o nascimento de golfinhos e baleias , conheci pessoas que serão amigas para o resto da vida, e irei sempre vou agradecer o tempo que passei lá.

Em relaçao aos projetos, o SeaWorld participa em muitas pesquisas e conservação, patrocina o SeaWorld Busch Gardens Fund, que doou milhões de dólares para projetos de conservação em todo o mundo e também tem um programa de salvamento e reabilitação da fauna selvagem conhecido e respeitado em todo o mundo e com este programa jà devolveu milhares de animais à natureza!

Estive tambèm pessoalmente envolvida em vários projetos de conservação durante a minha carreira e a minha funçao como treinadarora , era treinar os animais para realizar os comportamentos que os pesquisadores precisavam que fizessem.

Num estudo em particolar, treinamos as baleias para fazer um teste ao ouvido. Queriam saber qual é seu alcance auditivo. Isso ajudará os pesquisadores a entender se o tráfego naval e os varios ruídos no mar podiam interferir na capacidade das baleias de se ouvirem.

Treinamos as baleias para nadar em superfície e no fundo usando um monitor de frequência cardíaca. Queriamos ver o que acontecia com a frequência cardíaca durante a apnéia e durante os comportamentos que exigiam mais movimento.

Estes são apenas alguns exemplos dos MUITOS projetos em que estivemos envolvidos nos últimos anos.

 

Como vês o futuro dos mamíferos marinhos em zoológicos? Achas que vai acabar? Ou os governos perceberão que esses parques estão fazendo um trabalho muito importante?

É difícil prever a resposta a estas perguntas. Tenho visto a opinião acerca dos animais em zoológicos mudar muito durante a minha carreira.

Em particular no que diz respeito às estruturas localizadas dentro des parques temáticos onde fazem demonstrações com os animais. Por outro lado vejo que os zoológicos sem fins lucrativos não parecem receber a mesma atenção.

O nosso setor mudou drasticamente na última década. Canadá e França baniram os mamíferos marinhos em ambientes zoológicos, a Califórnia proibiu a reproduçao de orcas e o SeaWorld em particular parou com a esta reproduçao das orcas em todos os parques.

Algumas instalações, incluindo o SeaWorld, proibiram alguns comportamentos nas demonstrações devido à "imagem" que passa para o público. Grandes operadores de turismo e companhias aéreas romperam a ligaçao com instalações que teem mamíferos marinhos. No entanto, zoológicos e aquários atraem milhões de pessoas e eu duvido que isso vá mudar tão cedo.

De acordo com a Associação de Zoológicos e Aquários (AZA), mais de 181 milhões de pessoas visitam zoológicos e aquários nos EUA - números que superam a NFL, NHL, NBA e MLB juntas. Globalmente, 700 milhões de pessoas visitam zoológicos e aquários por ano, ou cerca de 10% da população mundial. A China, por exemplo, é um mercado emergente para enormes parques temáticos com estruturas zoológicas impressionantes e atraem centenas de milhares de visitantes.

Os governos perceberão o importante trabalho realizado pelos zoológicos e aquários? Não acho que os governos se importem. A proibição de ter estes animais parece mais centrada e ligada a razões políticas do que ao que é melhor para os animais, e estas decisões costumam ser baseadas no baixo nível de informação do público sobre esse discurso.

Caberá às pessoas da indústria zoológica o dever de espalhar a nossa mensagem às pessoas encarregadas de tomar estas decisões no futuro, se quisermos um resultado diferente.

Estas pessoas precisam de ouvir e aprender mais acerca do trabalho que fazem os profissionais da indústria. Como a nossa voz em relaçao a educaçao e respeito pela natureza è importante , e se não o fizermos, continuaremos a sofrer com visões e informações obtidas ao assistir a filmes de propaganda carregados de emoção, financiados por grupos de direitos dos animais.

As instalações zoológicas também precisarão se unir e apoiar umas às outras nessas questões.

Quanto mais as mentiras dos grupos de direitos dos animais ganham visibilidade, mais eles continuarão a fazer crescer a propaganda negativa. Sabemos que o objetivo é acabar com todas as estruturas zoológicas ao redor do mundo e cabe a nós agirmos! O governo não fará isso por nós.

 

O que dirias a uma pessoa que não sabe como começar e quer dedicar a sua vida ao treino de mamíferos marinhos?

Para uma pessoa que deseja entrar no setor zoológico, pergunto primeiro que papel querem desempenhar dentro do setor.

Querem ser veterinários?

Querem salvar, reabilitar e libertar os animais?

Querem treinar comportamentos e fazer demonstrações?

Querem fazer pesquisas e treinar animais para estas pesquisas?

Com quais espécies querem trabalhar?

Existem muitos caminhos que podemos seguir no nosso setor.

Ter uma ideia de inicio do que se quer fazer , ajuda a deixar claro que caminho è melhor seguir para entrar no nosso mundo.

 

Embora muitas instalações não exijam um diploma, sempre recomendo um! Porque? É um campo competitivo!

Mesmo que um diploma não seja exigido, descobriremos na nossa pele que a maioria das pessoas com quem estamos a “competir “o possui. Dependendo da área de especialização que escolhemos, è sempre bom estudar biologia, zoologia, psicologia, ciência animal ou medicina veterinária.

Muitas vezes, é necessária experiência para conseguir um emprego num zoológico, mas como se consegue?

Ser voluntário em um zoológico ou aquário a caminho da escola, fazer um estágio num zoológico ou aquário durante o verão. Normalmente, são posições não remuneradas.

Arranja um emprego a treinar cães ou cavalos, importante saber que treino é treino. Candidate-se a um emprego para clínica veterinária, inscrevete à IMATA (International Marine Animal Trainer Association) e participa auma conferência.

Aqui iremos ter a oportunidade de conhecer pessoas que já fazem parte do setor.

Se quer ser um treinador, leia livros de treino como: Don’t shoot the dog de Karen Pryor, estuda o condicionamento operante e a linguagem que o acompanha, ler livros e aprender sobre os animais com os quais se deseja trabalhar.

Mantenha-se atualizado sobre os esforços de conservação e projetos de pesquisa envolvendo essas espécies.

Se precisa fazer um teste de natação para trabalhar na instalação que escolheste, descobre no que o teste envolve e TREINA! Não aparecer para um teste de natação se nao estas preparado!

Por fim, procura qualquer instalação que tenha os animais com os quais desejas trabalhar. Existem muitas instalações além do SeaWorld com mamíferos marinhos. Não desistas! Trabalhei em muitas outras instalações antes do SeaWorld. Para poder entrar no SeaWorld, fiz o teste 3 vezes para finalmente conseguir o emprego dos meus sonhos!

 

Alguns treinadores, com o tempo, acabam a sua carreira a trabalhar e a treinar outros tipos de animais, ou simplesmente mudam de setor e escolhem outra profissão. Quais achas que são as razões?

Há uma infinidade de razões pelas quais as pessoas escolhem uma carreira diferente. Os desejos e prioridades das pessoas mudam ao longo das suas vidas.

A profissão zoológica é exigente.

Na minha opinião, as pessoas saem por quatro motivos principais. Tempo, dinheiro, oportunidades de crescimento profissional e dor físico.

Os animais devem ser tratados 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano.

Trabalhamos ao ar livre em todos os tipos de clima. Quem já trabalhou com animais já viveu o trabalho noturno na chuva, de Natal, e isso também acontece nos finais de semana. Perdes feriados, teatro da escola dos filhos, aniversários, festas e jantares com a tua família.

Tudo vale a pena porque amas os animais. Mas as prioridades podem mudar, e podemos optar por se retirar do campo zoológico para um trabalho mais familiar.

O nosso trabalho, embora gratificante, não paga muito bem. Comprar uma casa ou sustentar uma família pode ser um desafio para o ordenado de um treinador.

Ter como objetivo uma posiçao de chefia pode ajudr a pagar as contas e, ao mesmo tempo, permanecer no setor. Depois de passar anos como treinadores, muitas pessoas desejam passer os seus conhecimentos aos mais jovens. Isso, mais o aumento de ordenado, são os motivos pelos quais as pessoas estão optando por um trabalhao de chefia.

Conseguir um trabalho de chefia, gerente ou executivo parece ótimo, mas, para isso, um destes cargos deve aparecer. As posições para esse tipo de função não são abertas com muita frequência, portanto, as oportunidades de crescimento podem tornar-se em expectativas infinitas.

Finalmente, este é um trabalho fisicamente exigente!

Num dado momento podes descobrir que o teu corpo simplesmente não aguenta mais. Este é outro motivo para deixar o campo.

 

Todos estes anos com animais incríveis devem ter permitido ver mil histórias. Podes nos contar alguma anedota que lembras de uma maneira particular?

Tenho muitas histórias boas!

Uma que sempre se destacou foi quando Shouka chegou ao SeaWorld San Diego vindo do Six Flags Marine World. Shouka viveu sozinho ou com um golfinho roaz por cerca de 10 anos no Marine World.

Ela não via outra baleia há muito tempo quando chegou ao SeaWorld!

Depois de chegar, transferimos ela da caixa de transporte para a nossa piscina médico para dar-lhe tempo para se aclimatar. Depois de um tempo, concedemos a ela acesso a uma de nossas piscina traseiras, que é maior do que a piscina médica. Levá-la para a piscina principal exigia que Shouka nadasse por um gate aberto, o que ela não tinha vontade de fazer.

Pedimos várias vezes, de maneiras diferentes, para vir até nós na outra piscina, mas ela olhava para nós e parecia dizer não, obrigada. Com o staff, discutimos várias opções de como convencê-la.

Decidimos levar Corky, uma baleia de 50 anos, para onde estava Shouka e esperávamos que a presença de Corky "levasse" Shouka a deixar a piscina médica, e escolhemos ela porque a Corky é um animal muito acolhedor e tranquilo e devido ao seu temperamento, costuma ser o animal que utilizamos para situações como esta.

Demos aos dois algum tempo para se encontrarem e comerem lado a lado com o gate fechado entre eles antes de abri-lo. Quando abrimos o gate, Corky entrou na piscina mèdiaca e meteu-se logo ao lado de Shouka.

A Shouka não parecia nem um pouco interessada em ver uma baleia gigante ao lado dela depois de 10 anos! Pedimos entao a Shouka e ao Corky que deixassem a piscina médico juntos, esperando que o desejo de Shouka de ficar com Corky a encorajasse a ir embora, mas não!

Shouka ainda estava relutante em nadar pelo gate aberto para a piscina maior. Tentamos muitos cenários diferentes mas ela não estava interessada em deixar a segurança da piscina médica.

A este ponto, parece que a Corky descobriu o que estávamos a tentar fazer! No seu tempo livre, nadou na piscina mèdica, espremeu so eu enorme corpo de 4.000 kg SOB Shouka e carregou Shouka para fora do gate para a piscina maior !!! Depois de passar pelo portão, Shouka imediatamente nadou sob Corky, na posição em que uma cria nadaria sob sua mãe.

Foi um dos momentos mais incríveis que já presenciei como treinadora!

Não sei se Corky sabia o que queríamos que acontecesse ou se apenas queria que Shouka fosse nadar com ela, mas foi um ótimo momento para assistir.

 

Obrigado Vicki por este tempo e por compartilhar a tua experiência conosco, desejamos o melhor para o teu futuro, seja tanto pessoal que profissional

 Muito obrigado ao WeZooit pela oportunidade e continuem com o bom trabalho pessoal!smile

 

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